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O Brasil, o luto e o futebol

10/07/2014

Doeu. Doeu lá no fundo do peito, se é que existe uma expressão mais apropriada para expressar um sentimento de desolamento. Veio como uma pancada forte, ainda que esperada, mas não era de se imaginar tão violenta e brutal como foi. A ponto de massacrar e deixar os representantes do futebol brasileiro estirados ao chão.

Estou aqui apenas para expressar uma emoção. Ser comentarista esportiva jamais fez parte dos meus planos. Observo, de longe, o futebol. Nada de fanatismo. Gosto do jogo, da magia desse esporte e o que este promove entre pessoas de diferentes lugares e diversas culturas. Do brincar e do modo prazeroso de driblar o adversário e sair comemorando o gol, seja no quintal de casa, no campinho da rua, na quadra da escola, no time do coração ou na seleção do seu país.

Hoje, pela manhã, não vi nenhum clima de felicidade pelas ruas de Amsterdam, como o de costume das últimas semanas. Pensei: a magia do futebol se perdeu. Vi (nos cafés, nas calçadas, na padaria, na farmácia), rostos tristes, ainda que holandeses. Sabe o luto de quando alguém morre e fica a sensação de desgosto e tudo a volta fica apático? Deduzi que era apenas o reflexo da minha lástima pela derrota do jogo Brasil, na noite anterior. Ledo engano.

Os holandeses, que encontrei, lamentam o ocorrido e dizem que a Copa perdeu a graça. Obviamente não desejam o Brasil campeão e sim a Holanda. Mas, o placar vantajoso, de 7×1 para a Alemanha, não foi uma derrota, foi uma espécie de funeral. Os germânicos já haviam matado o Brasil em apenas 18 minutos.  Mas como em uma luta arrebatadora, mesmo vendo que o outro já estava nocauteado, ainda era necessário esmagar parte do crânio dos jogadores para ter certeza de que era o fim, moralmente, de uma nação. A luta era livre e os alemães souberam fazer com categoria, na classe.

Acredito que o futebol tem a magia de unir as pessoas e é isso que deve prevalecer. Basta ao estrelismo e ao egocentrismo de alguns jogadores que a imprensa cria e repassa como fonte absoluta da verdade. “O craque carregou o time nas costas até…” Como assim? Vi várias propagandas enfatizando apenas um jogador entrando em campo com se ele fosse a seleção. A palavra seleção se refere a um ato de escolha de acordo a um critério específico. Neste caso, os melhores atletas. Entretanto time quer dizer, união. Um grupo empenhado para um mesmo objetivo. É preciso equilíbrio entre a equipe, porque todas as posições são fundamentais para que o lance seja concluído e a jogada seja bem sucedida. Vimos isso claramente com a Alemanha.

O que “presenciamos” nessa terça-feira, 08 de julho de 2014, para mim, foi um completo desastre psicológico. Um espelho da atual sociedade. O Brasil estava cambaleando com as pernas desde o início da Copa do Mundo. Ainda assim, a paixão pelo futebol fazia a torcida desejar mais uma vitória. Um momento de alegria diante da calamidade que avassala o território brasileiro. Um país de desigualdades. Literalmente “tropical e bonito por natureza” mas, corrompido pelo poder sujo que coordena um lugar de 200 milhões de habitantes.

Talvez, agora, que já estamos na UTI com a porta aberta para o corredor do necrotério, seja tempo  para os governantes pensarem em um futebol limpo. Sem corrupção, sem violências ou negligências que se alastram cotidianamente. Que o poder público realize melhorias reais para o povo brasileiro, no que diz respeito a saúde, educação, transporte, segurança etc. Que o espetáculo ou a vitória dessa Copa seja o bem-estar do brasileiro.

Espero que as pessoas possam refletir. Porque, vergonha é saber que os direitos e deveres de um povo não estão sendo respeitados.  Vexame é querer trapacear seres humanos necessitados de atenção mínima enquanto cidadãos. Não podemos generalizar, mas, revolta é saber que muitos são guiados como mulas de cabresto sem nenhum contexto crítico próprio. Frustrante é ver que alguns hipócritas resolvem bancar o julgador e saem na “porrada” por pouca coisa. Derrota é tomar consciência de que, infelizmente, somos imaturos e nos falta preparação emocional. Nos falta estrutura para suprir as nossas adversidades e uma equipe para resolver os problemas nossos do dia a dia.

Sem dúvida há um nó na garganta.

Que o Brasil ainda tenha tempo de acordar do coma profundo. E que seja possível uma mudança para o benefício de todos. Para que as pessoas sintam-se em paz no próprio país. Que não tenham medo e que se sintam livres para ir e vir. Torço para que o Brasil evolua.

Mesmo com a sensação de que o futebol brasileiro morreu, prefiro sonhar, assim como o pássaro Fênix da mitologia grega, que o Brasil terá o poder de renascer das próprias cinzas. Que assim seja.

Por Edsandra Carneiro,

9/07/2014